Maternidade

Somos todas elas

No café de onde estou trabalhando, vejo uma mãe sentada com o seu bebê. A julgar pelo combo pescoço e dobrinhas, chuto uns 4 meses de idade. Ela está vestida com um short e camiseta, uniforme intergalático das mães quando a estação favorece. O cabelo preso num coque, uma tiara para ter a certeza de que nenhum fio vai ser puxado por mãozinhas afoitas, tênis e mochila. Saiu de casa completa.

Penso em como ela está.

Se conseguiu dormir mais de 3 horas essa noite. Se tem dente nascendo, se o peito está doendo, se hoje foi um dia de primeira vez. A primeira gargalhada, o primeiro rolamento, a primeira conversinha de bebê. Me pergunto se ela está comemorando uma mini grande conquista com seu copo de café e pedaços de chocolate na colher, ou se está tentando se dar um prazer para passar um tempo que não passa quando se está com sono, até a próxima chance de deitar a cabeça num travesseiro.

Será que ela tem ajuda? Será que o pai está no mesmo barco? Será que sua mãe mora a dois bairros de distância ou a dois estados? Ou do outro lado do oceano? Será que ela tem licença-maternidade? Será que ela ainda tem um trabalho de licença-maternidade ou escolheu ficar com o filho em tempo integral?

Depois de mãe, nunca mais outras mães passam despercebidas. Nós as vemos no aeroporto segurando assentos de carro num braço, a mala no outro, um bebê no sling e mais uma ou duas crianças logo atrás. As vemos passeando com seus carrinhos pela praia, pelas calçadas, por shoppings, por ruas não movimentadas. Elas estão pegando seus filhos depois de um dia de trabalho, outras com a mesma roupa de quando os deixaram pela manhã. As vemos aos montes, por todos os lados. As vemos não só onde são mães; onde são crianças. Nos sorrisos banguelas aleatórios, pensamos em qual foi a tática da vez. Se foi a fada ou o picolé. Podemos ver mães em qualquer pessoa. Veja bem, observe. Em todo ser humano, há uma mãe, mesmo não quando não foi a biológica. Mesmo quando ela foi pai, avó, adotiva ou tia. Em todos nós existiram noites esticadas, dias de vacinas, choros no chuveiro. Em todos nós existiu a comemoração do primeiro passo, o tédio dos dias comum, o que fazer quando estava chovendo. Em todos nós houveram boletins escolares, reuniões na escola e tranças no cabelo. Em todos nós existiram sonhos projetados, corações apertados. Existiu o alívio do não diagnóstico ou a dor de receber a notícia de uma doença, trabalhada dia a dia na persistência.

Nós somos mais que uma sequência comum de eventos: nascer, crescer, morrer. Somos o que nos aconteceu a cada dia, como chegamos até aqui. Somos as decisões tomadas com aquela voz agora talvez distante: “faça o que te faz feliz”. Somos os planejamentos de toda uma vida, ou a falta deles, a espontaneidade dos dias.

Somos do ventre.

Do respiro de uma mãe, sentada no café, pensando em atividades para o desenvolvimento da coordenação motora do seu bebê. Pensando se precisa comprar mais macacões ou meias. Pensando em tudo aquilo que todas nós já pensamos um dia.

Ou simplesmente não pensando em nada, tomando um café com a mente vazia e o coração cheio.

 

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