Comportamento, Maternidade

ÀS AMIGAS

Eu sei que muita coisa mudou desde que virei mãe. Minha vida agora acontece nos intervalos. Tomo café entre fraldas e mingau de aveia no fogão. Troco de roupa entre uma chutada na bola e uma golada no café. Como um pão com a roupa pela metade, mais outra chutada de bola e o resto do café que ficou gelado. É, dei o passe completo para aquele meio metro de altura que agora corre pela casa arrastando tudo que lhe é de direito e tamanho. Afinal, depois dos trinta aprendemos que é feio falar que não temos tempo. Temos prioridades. E as minhas, que costumavam ser vividas a pleno vapor, ficaram assim, nos intervalos.

Eu tenho pouco para dar, é verdade. Minhas respostas no whatsapp ficaram mais curtas que o meu cabelo e muito mais demoradas que o meu banho. Os bons drinks ganharam uma cor pastosa, branca, chamada leite. Ainda viro noites, sim, mas elas são da porta para dentro se você topar alguma. Podemos sair durante o dia, desde que seja ao ar livre, com hora marcada, espaço para carrinho, brincar e se tiver um parquinho, melhor. As minhas horas livres funcionam como loteria, mesmo que elas caiam no número certo, às vezes não vem prêmio junto. Me vejo monotemática nos assuntos – do graal das sonecas às receitas de lanchinho – todos os tópicos vêm com um carimbo infantil.
Não tenho muito a dar a não ser a inteira nova percepção do mundo desde que me conheci mãe. No máximo, tenho alguns conselhos para você aproveitar BEM o seu tempo e parar de reclamar da ressaca do vinho.

Ainda assim, eu preciso. Preciso muito. Preciso sentir a barriga doer de rir e não só de chutes. Preciso saber que o mundo ainda continua mundo. Preciso ouvir de trabalho, dos crushs, do que não deu certo e da tormenta que é não ter tempo de assistir todas as séries alvo na Netflix.
Preciso que sequem meu choro, que me façam ter certezas quando eu só ver as dúvidas. Preciso também que me relembrem das minhas escolhas quando eu duvidá-las porque o meu sono está embaçando qualquer clareza de pensamento. Preciso ser chamada para os eventos. Preciso que venham a mim quando pela oitava vez no mês, eu falhar em ir. Mesmo sendo a companhia para ele enquanto eu tomo um banho decente.

É pra morrer de amor agora ou depois?

Preciso ser relembrada de mim.
Ter quem me coloque em cima do salto ainda que ele seja tênis.
Quem me sequestre para ir cortar o cabelo sob a pretensão de assunto sério.
Quem tenha a disposição de sair para abrir o bar, quando costumávamos fechá-los.
Quem faça pouco caso quando eu me levar muito a sério.
Quem veja meu filho crescer mesmo que por cinco fotos na semana e sem eu dizer, apontar para todas as pequenas diferenças que ali estão. Porque eu vou estar rindo da coincidência do lado de cá.
Preciso ser puxada para fora da bolha da maternidade, de onde haja perspectiva.

Preciso, preciso, preciso.

Ser mãe é o maior ato de doação e ainda assim passamos por surtos de egoísmo. É quando achamos que o mundo precisa parar só para que possamos descer um pouquinho. Culpamos tudo e todos por não entender a força do nosso trabalho. Clamamos o direito de muito. E ai de quem achar que não. Queremos ouvidos extensos para entender a nossa dor, já as opiniões precisam vir curtas e customizadas.  É mole? É, não somos fáceis de lidar. Precisamos ser amadas mais do que nunca, entendidas em todas as crises e aplaudidas pelas pequenas conquistas. Nos parecemos com as nossas próprias crianças.

Precisamos de espaço.
E se há um grupo seleto onde o encontramos, são elas, as que um dia decidimos chamar de amigas.

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