Comportamento

MR. NOBODY E OS NOSSOS CAMINHOS

SPOILER ALERT – Se você nunca viu Mr. Nobody, assista primeiro, vale muito! 🙂

Recentemente, tirei férias compactadas da maternidade. Três dias em Nova York, oh là là. Enquanto a pessoa convencional mira dez dias, entenda, uma mãe passar duas noites fora de casa ressoa na bateria da Sapucaí. Três dias em que o relógio não andou em blocos de comidas e sonecas. Não me lembrava do tanto de tempo que existe quando só existe você – aproveitem, queridos jovens e não tão jovens sem filhos.

No voo de volta, resolvi assistir Mr. Nobody, é bom ver filmes de perspectivas lá de cima do avião. Sim, é incuravelmente brega. Mas é verdade, aplicar a teoria da relatividade do tamanho a qualquer problema faz ele ficar incrivelmente solucionável. Principalmente quando o problema é dos outros.

Mr Nobody é um filme belga, de 2009, que conta a história do último homem mortal de 118 anos, Nemo Nobody. Ele tem o fim de sua vida assistida num reality show futurista, quando a humanidade alcançou a imortalidade através de células-tronco de porcos (roteiristas…).
Quando criança, Nemo viu seus pais se divorciarem e sem saber escolher com quem ficar, ele vê o futuro de três possíveis escolhas, que são mostradas no filme sem muita linearidade. Como se todas elas tivessem sido escolhidas e vividas paralelamente. Um ideia tentadora até para os mais decididos.

E agora, Nemo?

Nemo está lá para falar de escolhas e da dúvida inquietante em vários pontos da vida: qual caminho deve Joãozinho seguir. Quando mudamos de país, de trabalho ou de amor. Qual caminho seguir? Quando fazemos carreira ou o que dá na cabeça, qual caminho seguir? Entenda, tem gente que nasce com certezas e gente que nasce com dúvidas. É só ir a um buffet e você consegue facilmente identificar quem é quem.

Para os que nascem com certezas, a minha admiração. Para os que nascem com dúvidas, a minha mão -tamo junto colega. A dúvida do caminho escolhido é às vezes paralisante, pelo simples fato de não termos como visitar o futuro para voltar com a resposta à pergunta mais básica dos sofredores indecisos: é a melhor decisão? Por vezes vem um quentinho no coração no curto prazo dizendo que sim, olha, você fez uma boa escolha. Ponto! Mas a verdade é que este quentinho ao longo do tempo passa pela síndrome do cobertor curto: não dá pra cobrir tudo ao mesmo tempo. E aí nos perguntamos de novo e de novo e de novo: foi a melhor decisão?

Queria eu poder te dizer que em algum momento a certeza vai chegar, que você vai respirar o ar do alívio merecido e tudo vai se encaixar. Mas olha, não vai não. E adivinha – tudo bem. O problema não é não saber escolher. É se corroer por isso. É não entender que nem os mais decididos também se questionam. Que aquele mulherão dona de si e do seu dinheiro também não sabe bulhufas se escolheu o jeito certo de ganhar dinheiro, se casou com um homem alto o suficiente, se ficar solteira tá mais vantajoso ou se morar no seu apartamento estúdio suprimiu o seu desejo em ter uma casa com jardim e cuidar de plantas. Ninguém sabe se a vida tá dando raiz quadrada.

É preciso fazer as pazes com o efeito-borboleta das mini decisões. O jeito como você passa a sua manhã interfere na sua tarde, que define como foi o dia. E a soma das mini decisões dos seus dias formam a sua semana, que dá o gosto do seu mês. E os meses todos juntos te dizem num retrocesso de comer sete uvas ao lado de quem você ama muito e nem tanto, como foi o seu ano, e os seus anos te dão uma imagem mais ou menos formada do que você visualiza. E a vida é simplesmente o composto de várias mini decisões intercaladas com algumas poucas e grandes viradas.

Mini decisões importantes quando em viagem.

Nemo Nobody, depois de assistir a todas as suas possíveis vidas, se reclina da cadeira e sacia a sede do jornalista inquieto que o entrevista:

every path is the right path.
everything could’ve been anything else
and it would have just as much meaning.

Todo caminho é o caminho certo. Tudo poderia ter sido de outro jeito. E ainda assim seria cheio de significado. 

Então eu desci do voo, peguei a minha mala, senti o calor úmido da Flórida transpirando na minha jaqueta enquanto via meu filho correndo cambaleado em minha direção: Nova York foi incrível, mas um beijo babado dele é a melhor das melhores vidas que eu tenho agora.

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