Maternidade

O PRIMEIRO ANO A GENTE NUNCA ESQUECE

Faz um ano que você chegou. Trezentos e sessenta e cinco dias em que todos os dias eu acordei e o meu espelho era você. Doze meses, e para cada um deles um universo de conquistas. Como pode tanta evolução caber dentro de um mês? Vocês bebês precisam ensinar ao mundo o que é possível de ser alcançado em 30 dias. A gente aqui depois dos 30 acha que tudo vai acabar em Netflix. Ô geração.

Para você nascer, filho, muitas coisas em mim precisaram morrer. Eu poderia enumerar várias, dizer que o meu trabalho, meus lambiscos e noites sem relógio, na forma que costumavam ser, morreram. Só que isso é ajustável, a gente aprende um jeito de trazer a vida própria de volta da era do puerpério, mesmo que essa vida signifique se maquiar no banheiro enquanto neném tá desenrolando todo o papel higiênico. Porque, né? Distrair é preciso e amor próprio também!

Mas se tem uma coisa que morre morrida é a nossa rigidez, um tipo de certeza que paira em grupos de adultos, já viu? Certeza de opinião, de onde colocar as chaves e do quanto de açúcar no café. Certezas nas polêmicas do Facebook, certeza do quanto é preciso bater na conta no fim do mês. E de certeza em certeza, chega uma hora que não tem mais para onde subir na ladeira da vida. Não existe um cargo supremo de convicção e nem epitáfio que vá dizer “Aqui descansa um adulto com muitas certezas”.

Veja bem, não é que você me fez melhor, você só me fez mais humana, e por isso, muito mais suscetível às variações terrestres de temperatura e pressão.

Ter um filho às vezes parece que eu tirei o coração do peito e deixei ele ali tomando um ventinho na varanda. A brisa é boa mas se bate um vento sul, colega, f-o-d-e-u.

 

É se expor ao máximo de amor e dor. Lembra aqueles dias que você não conseguia dormir por um eczema safado que só coçava? Aquela sua coceira desenfreada, ela entrava na minha alma e fazia meu sangue correr mais rápido que o sonic. Já nos primeiros passos, era como se eu estivesse aprendendo a andar junto, tamanha a alegria em te ver cambaleando com os braços pra cima, achando o seu mini equilíbrio nas suas mini pernas. É verdade, a gente que tem filho reaprende a viver.

Os três primeiros meses de sono infinito foram quando os meus olhos se abriam e fechavam no mesmo ritmo dos seus. O segundo trimestre, com as dobras deliciosas no auge da sua nenenzice, eu passava por ataques diários de amor agudo e me realizava até com arrotos. Daí vieram o sétimo, oitavo e nono mês e você virou um quadrúpede muito do ousado. A casa ficou pequena. É quando a gente enxerga todas as possíveis quinas e cantos, saímos de um mundo retraído e ficamos com o instinto mais aguçado do quarteirão.
Outro dia uma amiga, que é mãe de dois, acordou às 3h da manhã com cheiro de gás que vinha da outra rua, pronta pra debandar de pijama com os documentos e os filhos se preciso fosse. O que não aconteceu, obviamente.

Então chegam os últimos três meses. Passamos por noites em claro, dentes nascendo, amamentação, curamos resfriados e enxugamos lágrimas, estudamos vacinas, BLW, atividades sensoriais, planejamos comida para manadas enquanto tomamos nossos cafés de pé na cozinha e lemos artigos antes de começar a trabalhar o trabalho que não é o trabalho dos filhos. Em dupla ou sozinhos. Sabemos tudo.

Nos achamos super heróis até olhar para o lado e ver que aquele bebezinho está indo embora. No lugar chega aos poucos uma criança com todas as suas complexidades, que precisa de muita educação, paciência e atenção “não pode, vem cá, tira a mão daí, brinca com esse, dá o outro pro amiguinho, desce devagar, cariiinho” e por aí vai. Sabemos nada.

Abrimos a porta, ele sai andando e segurando a nossa mão enquanto a outra aponta para o céu “piu piu, mama!”. Eu olho nos olhinhos arredondados dele que se mexem na velocidade da sua curiosidade, fecho os meus e vejo o nosso último ano, ali, com todas as suas mini batalhas e conquistas. Embalo as minhas certezas com as roupas pequenas, elas não servem mais. O jeito é só ir, acompanhando os seus passinhos até eles irem sozinhos.

E o coração, vai ficar ali fora tomando vento pelo tempo que for.

 

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