Comportamento, Vida nos EUA

VOCÊ QUER MESMO SAIR DO BRASIL?

O Brasil não está fácil. Pirracento e responsável por muitas quedas de cabelo. A política chora enquanto a inflação puxa as calças daqueles que tentam apertar mais os cintos. O que eu mais tenho escutado nesses últimos dois anos, para a minha triste constatação, é:

Sorte a sua, que saiu daqui.

Olha, viver num país desenvolvido ajuda mesmo a nossa qualidade de vida mesmo que essa vida seja suada e você precise trabalhar o dobro do que trabalhava no Brasil, afinal já vimos a relação entre abrir um Mac no ônibus e lavar o próprio banheiro. Dada as proporções, é possível comprar um carro sem ter que pagar cinco anos por ele, é mais seguro andar sozinha nas ruas à noite e uma jaqueta custar um terço do seu salário é tido como assombroso (não era pra ser sempre?).

As filas de visto estão cada vez maiores.

Vou ali respirar um arzinho.

Nossa, mas esse ar tá bom mesmo, hein?

Eu concordo. E digo mais, se você quer passar uma temporada fora, fazer eurotrip, conhecer o sul asiático ou tomar ayahuasca em Machu Pichu para descobrir sua vocação, VÁ! E vá depressa, faça suas economias e se mande.

Viajar é um troço muito incrível que nos tira da órbita umbilical.

Mas existe uma certa diferença entre ficar um tempo fora do Brasil e se mudar de vez. Quando essa viagem tem data para terminar, você a vive intensamente. O perrengue de quando você andou mais de 5km no frio negativo de uma cidade a outra (FACT CHECK: verdade) vira uma história engraçada para contar aos seus amigos, de volta à sua cidade, falando a sua língua, na sua casa com os seus cachorros e os seus gatos, tomando seu vinho na sua taça.
Mas quando a mudança não tem data de validade, você vai precisar resolver todos os mini perrengues, porque essa agora é A SUA VIDA.
O nosso cérebro é bem espertinho, ele está sempre tentando fazer das nossas rotinas um hábito para economizar tempo e focar em outras atividades, maximizando o nosso poder de sobrevivência. O livro O Poder do Hábito explica bem essa teoria. Isso significa o que?

Tudo o que lhe era familiar saiu de cena e você vai precisar gastar um tempo considerável recriando familiaridade sob o risco de não reencontrá-la.

Você estava num piloto automático no Brasil: língua nativa, círculos sociais, trabalho, família, bolo-guaraná-suco de caju e por aí vai. Fazer cada peça encaixar de novo em cada departamento requer paciência e persistência. É possível? É sim, desde que se tenha disposição emocional e recursos. Algumas pessoas entram rapidinho no esquema do país novo, outras levam anos e ficam com um certo gosto de inadequação na boca, mesmo com a vida em ordem.

A vida de imigrante é psicologicamente um desafio.

É fácil imaginar que quem se mandou anda nadando em privilégios, o Instagram não mostra os nãos que a gente leva. Então antes de abraçar os sims, é preciso pensar mais naquele óbvio nem sempre tão simples. Aqui estão três gavetas fundamentais, então pense se você está com disposição genuína para mexer nelas:

      1. MUDANÇA DE LÍNGUA

Entender a essência de outro idioma por completo com seu senso de humor e entrelinhas leva teeeeempo. Dá para se virar uma vida sem dominar, mas ela vai ser mais difícil. Ficar fluente ainda é a melhor forma de inserção no seu atual país e traz um pacote de vantagens Mastercard. No mínimo você vai conhecer mais pessoas e ter mais oportunidades de trabalho, criando aquela sensação de pertencimento.
É verdade, tem dias que eu não aguento mais falar inglês mesmo tendo total domínio. O fato de eu ser casada com um americano é dual, me acelera na adaptação e por isso eu fico ligada no turbo. Mas até a calculadora de mão precisa ser desligada. E aí só duas coisas resolvem: ou brasileiros locais ou ligações para os não tão locais.

      2. DISTÂNCIA AFETIVA

Família é família.Viver (muito) longe da nossa é um saco. Não tenho palavras para te consolar. Você vai chorar, vai querer voltar correndo no Natal para a casa da sua avó e ouvir todas as piadas sem a menor graça. Vai se perguntar como não te amarraram na cama pra você não ir embora, fazendo de conta que não foi você a responsável por bater o pé em querer ir.  O lado bom dessa história é que cada encontro é tão cheio de purpurina que faz a picuinha ficar para depois. E de depois em depois, as brigas se findam.
Tem também também os amigos. Como fazem falta. A sensação de cumplicidade construída sobre o mesmo cenário fica lá pra trás. Ninguém vai te acusar de ter gostado de Capital Inicial na frente do crush. É verdade, a gente faz amigos novos. Alguns poucos aqui e ali porque amizade na esfera adulta é outro tema a ser desvendado. Mas seus amigos de anos vão continuar sendo seus amigos de anos, todos ali no whatsapp, de um jeito ocupado ou de outro. Vão até te visitar no país novo! (obrigada, gente! ♥), mas no fim do dia você queria mesmo era colocar todos num potinho e levar junto.

      3. ACULTURAÇÃO PSICOLÓGICA

Nome bonito, né? Significa que você, pessoa tupiniquim, vai passar por um processo de desenraizamento para ser apropriada pela cultura dominante em que está. Tá tudo nos livros. Um estudo cita o psicólogo Phinney que acredita no processo de aculturação como costumes e valores originários sendo substituídos pelo que se está inserida. Ou seja, as chances de você passar a gostar de café gelado e cerveja morna são proporcionais à sua disposição em se desvincular das temperaturas originais. O quanto você está disposta a se deixar influenciar? Quantos por cento da sua alma brasileira você vai deixar armazenados? Tudo bem não ter coxinha na esquina? Tudo bem não ter intervalo de almoço de mais de 1 hora? E não ter férias corridas de 30 dias, tudo bem? (Se não, vá para a Itália).

 

Se depois desse texto te convencendo a ficar a pensar no Brasil, você ainda quiser tentar uma vida diferente, tenha certeza que essa vida vai ser também incrível. Por mais que se tenha saudade demais e português de menos, é a gente que faz o nosso dia ser bom. É a gente que vê novos lugares, que prova novas comidas e deixa a cabeça um pouco mais aberta a entender jeitos diferentes de pensar. É a gente, sem dúvida alguma, que escolhe a forma como vai viver, independente de onde o nosso ponto no mapa seja. Boa sorte na sua!

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