Comportamento, Maternidade

LEMBRE-SE DE VOCÊ

Relutei algum tempo em escrever sobre isso. É assunto para chover contradição, e jogá-lo abertamente na internet é pedir para ser julgada na muralha da sociedade. Mas a polêmica, minha gente, ela é necessária.

Preciso falar sobre o que, para mim, foi um dos maiores desafios nesses 10 meses desde que meu filho chegou. Quem sabe você está aí na mesma, só carente de uma palavrinha de apoio para se libertar. Afinal, já temos culpa demais e não precisamos de mais uma na pilha diária entre roupas, mamadas e falta de de sono. Então lá vai: depois que o seu filho nascer, lembre-se de você.

Vou repetir em negrito: depois que o seu filho nascer, lembre-se de você.

Caso isso provoque ruído nos seus ouvidos culpados maternos, me dê cinco minutos para explicar e afinar as cordas.

Você esperou a gravidez inteira para conhecer seu bebê. Só que se você, assim como eu, é mãe de primeira viagem, sabe que nós não temos a menor noção do trabalho que eles vão demandar. Por mais que haja exemplos próximos, amigas e primas mães, só vamos entender a dimensão dessa experiência quando finalmente alcançarmos a epifania de não dormir mais de três horas seguidas em três meses. Isso vai desencadear alguns mecanismos automáticos de defesa. O nosso cérebro, muy esperto, entra em modo econômico de bateria para defender a nossa sobrevivência. Não é preciso fazer biologia para entender isso, basta viver a situação. Para continuar comendo e existindo e alimentando o nosso filho, toda aquela energia que gastávamos em nós mesmas agora foi enxugada, então passamos a operar com 30% da capacidade original, em média. É preciso então cortar várias regalias de uma vida antes-criança.

Esfoliar o rosto no banho enquanto deixa o cabelo hidratar? Esquece. Ler os livros de cabeceira antes de dormir? Só os que falam do sono do bebê. Assistir cinco episódios seguidos de House of Cards? Hahaha. Passar o dia pensando na roupa que vai sair à noite? SAIR À NOITE? Bares, happy hours, encontrar as amigas depois do trabalho? Jantar romântico? A balada é no nananenê. Fins de semana de sono estendido, feriados viajados de última hora? Para quem pode. Horas dedicadas a cursos e trabalho, música alta e toda uma gama de tempo investido no simples prazer de não fazer absolutamente nada? Is this real life? Eu não sei você, mas todas essas alegorias para mim ficaram um bom tempo pairando no limbo da semi-existência durante os primeiros meses de maternidade.

Não é que NUNCA mais vamos fazer tudo isso, mas precisamos considerar dois fatores cruciais aqui: 1 – a vida com filho requer certa rotina e 2 – o seu tempo não é mais seu. Claro, boa parte deste mesmo tempo é preenchido com detalhes deliciosos de ter um novo serzinho todo nosso e isso é muito, muito incrível. Mas amiga, vem aqui, chega mais perto para eu não precisar falar muito alto: você ainda e também é uma pessoa.

É como se você pegasse um financiamento no seu banco de horas. Tudo bem o investimento em prol de um projeto maior, mas eventualmente você vai precisar repor os dividendos para sanar a retirada. Eu sei, eu sei que o esforço para fazer qualquer coisa pessoal parece só ser possível se baixar um Moisés na travessia do Mar Vermelho, mas aos poucos e com certo esforço esse mar bravo da culpa materna tende a ficar mais fluido. Lembro até hoje da primeira vez em que saí de casa sem neném. Estava tão bêbada de sono que olhava as pessoas na rua e me perguntava se por acaso elas estavam lá andando esse tempo todo. Na segunda vez, coloquei salto e saímos para jantar japonês. Terminamos a noite numa loja express de cadeiras de massagem com os meus pés testando a nova tecnologia roladora de pontos sensíveis. Na terceira, fui ao supermercado sozinha e quase tive um infarto quando minha mãe me ligou e disse que o Luca havia vomitado o leite que eu deixei. COMO ELE VAI VIVER NA PRÓXIMA HORA. Deixei as compras no chão e cheguei em casa suada com as veias pulsando testa afora, sem comida para o almoço, só para constatar que ele estava muito bem obrigado. Ainda tive que esperar a soneca terminar, todos com fome, claro.

Deve ter sido lá pelos 6 meses que comecei a conseguir tirar amostras do meu tempo sem precisar sentir que tinham dez cavalos pisoteando a minha consciência. O desafio agora era encontrar tempo entre sonecas e rotatividade, já que somos dois e um bebê. No começo, pode parecer forçado você ter que se planejar tanto para gastar uns 10 minutos numa maquiagem, sair para um almoço ou simplesmente ter a mente livre para ler um livro seu e não o décimo quinto artigo sobre saltos de desenvolvimento. Mas acredite, cada pequeno movimento desses vai oxigenar a sua e, consequentemente, a sua relação com o seu filho.

A sociedade muitas vezes enxerga essa prioridade como insistência num suposto autocentrismo, o que leva muitas de nós a crer que não somos mais merecedoras de nós mesmas. “E seu filho, tá onde?” “Não vai amamentar até os dois anos?” “Já voltou a trabalhar?” “Você não vai mais trabalhar?” “Tá saidinha, hein?”. Agora eu te pergunto, o que tem a sociedade a ver com a nossa conta bancária? Quem, no fim do dia, vai deitar a cabeça no travesseiro (se assim possível) e sentir o peso dela é você. Quem vai se equilibrar entre a maternidade e a sanidade é você. Para todo o mais, cara de alface ensinada pela Tchulim:

E por que, afinal, estamos gastando todo esse tempo nos convecendo da ideia de que o nosso tempo ainda precisa existir? Simplesmente porque quando estamos razoavelmente realizadas, somos pessoas melhores, filhas melhores, parceiras melhores, mães melhores. Porque a troca é indispensável para continuarmos equilibradas. Porque é muito melhor voltar para casa com um sorriso no rosto do que passar o dia ranzinza. Ou o inverso. No fundo, você sabe onde mora a sua autoestima. Não cabe a mim ou a ninguém dizer quais pedacinhos vão te trazer de volta o significado de ser você. Mas eles existem e não precisam ficar estocados embaixo da pilha interminável de fraldas e babadores. Pega o teu banco de horas, mama bear, e comece a gastá-las naquilo que te dê algum senso de identidade novamente.

Assim, armada com seus escudos e disposta a se resgatar, ela respirou.
E o filho, agradeceu.

 

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3 Comments

  • Reply Lúcia 14 de julho de 2017 at 5:44 PM

    👏👏👏👏👏👏👏👏👏

  • Reply Adriana Tozzi 19 de julho de 2017 at 6:18 PM

    Clara,

    A-d-o-r-e-i seu texto.
    Ri muito.
    Impossível não me identificar!!!

    É bem isso, guria.
    Mas passa … tudo passa!
    Lembro que antes da gravidez eu adorava beber vinho. E nunca fui grande bebedora de nada, mas o vinho era um prazer.

    Dai veio a gravidez, nascimento, amamentação e, eis que, uns sete meses depois, eu resolvi beber uma taça de vinho. Coloquei Alice pra dormir, fui pra sala e bebi.

    Fui dormir super bem.
    Lá por duas da manhã ela chorou. Acordei que-bra-da!
    Pensei: porque???? Será que nunca mais eu vou beber vinho?

    Mas hoje eu já bebo normalmente. Ela tem sete anos e já dorme à noite inteira. Às vezes acorda às 9 da manhã. Vai no banheiro sozinha, come sozinha, se veste sozinha …

    É um momento mesmo, este pós gravidez. Que vai durar mais ou menos, dependendo de cada mãe e cada filho.

    • Reply Clara K. 25 de julho de 2017 at 11:22 AM

      É isso né? A gente fica na torcida de voltar a fazer o de antes e um belo dia eles acordam e fazem tudo sozinhos.
      Aí ficamos naquela: cadê meu neném? Hahahahah
      Vai entender as mães…
      Aqui estamos com 10 meses, lentamente tentando ter alguma vida própria.
      Uma hora chega 🙂 obrigada pelo comentário!

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