Comportamento, Maternidade

TER FILHOS DÁ TRABALHO?

Então eu ouvi – mas filho dá muito trabalho!

Ô se dá. Viver no geral dá um trabalho danado, já reparou? Para começar, você passa os primeiros sete anos num trabalho cíclico de aprender a ser decente: andar, comer com talheres, usar locais apropriados  para atividades apropriadas e não dizer muitas verdades em reuniões familiares.

Some mais uns dezoito anos neste combo para achar que vai ficar livre do trabalho que é estudar e toda aquela trabalheira em fazer parte dos círculos de amigos que combinam com as suas esquisitices, de fato o trabalho com que você mais se importa, secretamente. Paralelo ao trabalho de parecer ser uma pessoa digna das amizades, há também o trabalho de tentar a sorte no amor, caso a lua te favoreça.  Então você passa anos trabalhando no seu mapa da atratividade: vê todos os filmes ranqueados essenciais para quem nasceu antes de 1990. Faz a matrícula na academia, se junta a um grupo de corridas, posta fotos das corridas 5km, investe na yoga, dieta paleo ou não faz nada disso e cultua o sofá como responsável pelas suas horas de vida bem vividas. Também investe no trabalho de dar uma entendida básica em alguma categoria paladar: saber a diferença entre os vinhos chilenos e argentinos, se a cerveja é pale ou red ale, fazer um prato agridoce que apesar de sempre duvidoso, causa alguma primeira impressão “gostou da torrada de figo com queijo de cabra?” ou pagar a conta se você não der para nenhum desses, afinal estava muito ocupada trabalhando porque a essa altura você já saiu da faculdade e entendeu que o trabalho da vida está só começando.
Ainda no meio desse trabalho cupido, às vezes você namora, às vezes enrola, outras é enrolado, mais outras desenrola ou até mesmo casa. E eu não vou nem me dar ao trabalho de falar do trabalho que é organizar um casamento, porque a verdade é que este trabalho não se compara ao trabalho que é manter-se casados por anos. Toda aquela construção de relacionamento para que vocês se entendam, se  amem, se respeitem e assistam Game of Thrones por fins de semana a fio, tendo apenas o trabalho de ligar para o delivery de pizza. Um trabalho ordinário esse tal de amor.

Por falar no trabalho em si, já deu para sentir o clima né? Depois de ter o trabalho de escolher com o que você queria trabalhar durante grande parte do seu tempo, você sai da faculdade e começa a trabalhar de assistente, fazendo o trabalho das outras pessoas ficarem mais fáceis até você poder virar chefe e fazer o mesmo trabalho. Isso se você teve o tiro certeiro de escolher uma carreira aos 18 que continue fazendo sentido as 30, caso contrário tem aquele trabalho de mudar de área, estudar mais para chegar ao outro trabalho e ver que, no fim do dia, trabalho é sempre trabalho.
Com sorte, não vai ter muito trabalho para chegar ao trabalho em menos de trinta minutos. Um pouco mais de sorte e você não vai precisar ler e-mails depois das oito da noite. Otimismo é essencial para fazer o trabalho não ficar muito trabalhoso.

Como 90% das pessoas, você também passa o ano todo trabalhando para ganhar alguma folga do trabalho. Não me pergunte o que fazem os outros 10%, se não eu estaria fazendo a mesma coisa.

Então chegam as férias.

Você passa dois meses decidindo o roteiro dos seus quinze dias de folga. Na preparação, rola todo o trabalho intermitente de deixar o seu trabalho em dia para que você não tenha trabalho explodindo quando voltar. Sem contar o trabalho de pensar na mala quando vê no celular a previsão acuradíssima do tempo: entre 10 e 22 graus celsius. Agora sim dá para saber se leva casaco, short ou o guarda-roupa inteiro. Isso sem esquecer do trabalho de deixar a casa em condições básicas de auto-sobrevivência: aguar as plantas, jogar todo o lixo fora, levar o cachorro para a creche de cachorros e avisar o vizinho narigudo que você vai estar fora de casa por uns dias, para que ele não se dê ao trabalho de escutar se você voltou do trabalho às seis ou às dez da noite, mas que pelo menos fique com o trabalho de pegar as correspondências para você. Quando toda essa trabalheira fica pronta, você parte para o trabalho de pegar o avião, chegar ao seu airbnb que você teve o criterioso trabalho de selecionar e desfazer as malas. No dia seguinte, mais trabalho: aquela brisa salina na cara em direção à praia, decidir se come moqueca ou peixe grelhado. Trabalho árduo esse.

Na volta para o trabalho dos dias úteis, você começa a questionar suas escolhas de vida – se muda de trabalho, se adota um gato, se vira nômade digital na Ásia, se vira hippie, atriz, yoggi, se abre uma empresa para ter o seu próprio trabalho ou se larga tudo isso pra lá porque vai dar muito trabalho. O que você não contava era que um novo trabalho já estava a caminho, afinal cabeça de férias sabe como é.
Grávida. E agora? E o trabalho que é ficar grávida? Só no teste de farmácia a sua cabeça já começou a delirar pensando no trabalho que vai dar mudar a sua vida inteira para acomodar aquele novo trabalhinho aparentemente inofensivo e que mais se parece com um grão de feijão. Mas é melhor sempre começar o trabalho do começo, então você acha um médico, organiza o pré-natal, faz os todos ultrassoms, toma suas vitaminas e pensa no enxoval. O ENXOVAL. Parabéns, você não tem a menor ideia do que comprar. Nessa, são uma da manhã e você está assistindo o vigésimo vídeo de indicados do bebê, afinal é a terceira vez que você levanta para fazer xixi e o sono nem se deu ao trabalho de chegar. Lá pelo sétimo mês, você que achou que ia antecipar todo o trabalho da preparação, mas está assistindo suas expectativas trabalhando ainda na montagem do berço.  Lá pelo nono, você está trabalhando apenas para não entrar em parafuso já que não tem mais controle sobre a sua bexiga ou as suas emoções. Vamos combinar, chorar não é trabalho algum para uma grávida. Então você entra em trabalho de parto, o mais curioso de todos os trabalhos: xinga o pai da criança, abraça o pai da criança, grita, enlouquece com a dor, fica sem roupa, descabelada, para todo mundo bater palmas para você no final. Parabéns pelo seu trabalho. Toma aqui sua entrega.

Aí minha amiga, aí você chega em casa. E o que você faz? Liga pra sua mãe vir correndo te ajudar com o trabalho do pequeno pacote sem a menor ideia do trabalho que vai dar esse tal de puerpério. Mas sobre esse trabalho eu falei aqui.

Isso porque eu nem considerei aqui outros tipos de trabalho dependendo da vida que você escolher, afinal levaria horas. Além do trabalho da timeline da vida, tem também os trabalhos ordinários dos dias comuns a quase todos nós, que não temos o trabalho extremo de pensar se tem o que comer.

Por exemplo, ontem fui fazer uma pizza em casa. Mó trabalho: você junta a farinha, a água que tem que estar não muito quente não muito fria, o fermento, o sal, açúcar, passa quinze minutos misturando essa gororoba toda e ainda espera mais duas horas para crescer. Depois como se não bastasse ainda precisa picar o alho para fazer o molho, cortar os legumes todos em pedacinhos circulares e ir montando criteriosamente em cima da massa para parecer que foi tudo muito natural, um talento sem querer herdado da sua avó italiana. Enquanto espera a pizza ficar pronta, gasta aí uns dez minutos arrumando a bagunça da cozinha que está padecendo embaixo de farinha de trigo. Até que o forno apita, vocês finalmente estão livres do trabalho e podem se sentar para comer.

Claro, tudo isso caso o bebê não acorde.
Então eu respondi – é, ter filho dá muito trabalho mesmo. Cuidado com esse negócio de trabalho.


* Esse texto é humorístico e não tem a intenção de tomar partido da escolha de ter filhos. Entendo e defendo que cada pessoa deve viver como quer e pode.

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