Comportamento, Maternidade

POR QUE TIRAMOS TANTAS FOTOS?

Esses dias estava sentada no sofá fazendo cosquinha na barriga do meu filho de seis meses. Como se pode imaginar, os seis meses dele fazem desse momento uma das coisas mais engraçadas do dia. Ele gargalha alto, gargalha gostoso. Por ser tão delicioso ver a cara de alegria dele, eu reluto alguns minutos em seguir o roteiro da vida Instagramizada, mas ser humana que sou, logo vem o óbvio – Ei amor, tira uma foto aqui!.

Sempre me pego pensando que cada mês do meu filho é único na vida dele e na nossa. Pode ser pessoal, mas o tempo ganhou outra notoriedade desde que ele chegou e fez aumentar ainda mais o saracutico de que uma certa fase legal não vai voltar, mesmo com várias outras na fila do futuro. Ele não vai ter seis meses de novo, não vai ter gargalhada de neném daqui a um ano, ou se sentar pela primeira vez enquanto me olha concentrando de baixo do topete moicano que se formou na sua cabeça, ou ainda espremer os olhos quando come maçã raspada – talvez essa continue se eu continuar comprando fuji. É um ligeiro sentimento de que os detalhes lindos, ele olhando os dedinhos, mexendo no meu cabelo enquanto mama, virando a cabeça pra baixo enquanto faz graça e uma lista extensa de contornos diários serão varridos pelo tempo. Então na tentativa de controlar a timeline da nossa vida, todo dia vou enchendo a memória da câmera como se fosse contrato de aluguel de uma memória pseudoeterna. Como se a gente fosse mesmo viver olhando para essas curvas e tomando nota.
– Olha só, você com 2 meses quando começou a pegar o pé.
– Sua cara de quem vai vomitar maçã!
– Aqui é você vendo um pavão pela primeira vez. Não, é, não curtiu muito.

Afinal, o que vão ficar são as fotos e os laços invisíveis, né?

Mas pera.
Não é assim que a vida é pra ser?

Por que estamos obcecados em registrar tudo? Eu escrevo esse texto enquanto olho para o meu quintal, na remota vontade de fotografar algum detalhe, insistindo do alto da minha teimosia que é apenas um quê de olhar observador, quando na verdade a foto de uma xícara de chá não vai contribuir muito para o seu tempo ou o meu em terminar esse post, a não ser somar mais um quadrante em algum canto da Internet, perdida em milhares de dados diários. Claro, nem tudo é para fazer diferença. Mas veja só, há um contraste sutil entre gostar de fotografar e gostar de não perder nada.
Não é bem um discurso de largue o celular e aproveite o momento. É uma auto pergunta: – O que você não quer deixar passar com isso e por que?

Se a gente pensar no que está por trás disso, talvez vamos encontrar motivos mais reais ao invés da simples conclusão de que não largamos o celular porque ~gerações gonna be gerações~.

A dificuldade aqui está simplesmente em aceitar que tudo vai passar e inevitavelmente envelhecer. Eu, você, nossos bebês, nossos gatos, nossas ideias descoladinhas e as nossas casas vão criar mofo em algum ponto do tempo. Ver os anos passarem tem sido temeroso demais. Já viu? Aceitar o fato de que nada é sempre bonito tem sido muito desafiador. Aceitar que não precisa ser bonito para sempre é ainda mais.

Dietas sem glúten, sem carboidrato, sem alma, Paleo, botox, pílula contra o envelhecimento, exercícios contra o envelhecimento e logo mais a marcha contra o envelhecimento. Por mais que a ideia de um futuro cabelo roxo me convença a cada dia, envelhecer em paz já não é muito possível. Veja bem o caso da minha avó, que se recusa a usar aparelho de audição enquanto a família insiste, pelo amor da nossa paciência, coloque um. Ninguém consegue aceitar o fato de que ela simplesmente não está mais afim de escutar as nossas groselhas. Não se pode mais deixar o botão no off. Nem da câmera, quem dirá dos ouvidos.
– Ah, mas ela está se colocando em risco! – dizem.
Gente, tá todo mundo em risco desde o dia em que nasceu, ok? Ok.

O nosso tempo perdeu a o alvará de finitude. Estamos tentando coletar todas as experiências, colocar um filtro, ajustar o contraste e pensar numa legenda que não denuncie muito o tanto que a gente se importa com aquela foto, mas com hashtags o suficiente para sermos encontrados pela pesquisa de interesse.
Entre querer colocar pastinhas na nossa vida e colecionar o máximo número de lembranças possíveis, os dias ainda assim passam escorrendo pelos dedos. Com foto ou sem foto, vão passar. A ideia de que os nossos filhos vão olhar para trás e ver um rastro de vida própria digital sem que eles estivessem sequer cientes é incrível e assustadora ao mesmo tempo. Se não cafona, diria. Gosto de acreditar que eles vão ser seres mais evoluídos, e assim como a gente pergunta para os nossos pais por que eles nos vestiam a mesma estampa floral no short e na camisa aos finais de semana, os nossos virão no seguinte formato:
– Nossa, pra que tanta foto?

E as s respostas virão repetidas:
– Porque eu sou sua mãe. e olhar pra essas fotos me ajuda a lidar com o fato de que você hoje tem 30 anos

Ainda que a gente precise aprender a deixar tudo passar, o amor sendo brega é na real tudo o que nos resta.

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