Maternidade

NO PUERPÉRIO

São 3 horas da manhã. Um resmungo me acorda do meu sono já leve. Procurando o celular em algum lugar perto da cama para saber as horas, eu vejo um pé no canto do quarto. Dois, em ritmos alternados. Hora da mamada. Não só aquela, qualquer hora é hora. Do dia, da noite, do século XXI. Os meus olhos estão ardendo, pelo que me lembro fui dormir 1h da manhã depois da última rodada. Perco alguns minutos tentando me levantar enquanto o resmungo começa a virar choro. Pego o neném, volto para a cama. Pego a almofada de amamentação, sento. Um braço segurando aquela miniatura e o outro me ajeitando numa posição razoável. Ok, a postos. Começa a nossa grande pequena luta para mamar, as mãozinhas saem empurrando qualquer centímetro pela frente até que, do meu lado, vem outras duas mãos tentando apaziguar a briga. Curvo o corpo para frente até que ele consiga fazer a tal da pega correta. Foi! Não mexe, não fala nada, não respira. Só o suficiente. Pego o meu celular e começo a olhar qualquer besteira, é o único jeito de me manter acordada até terminar. Tem aquela mensagem de dois dias atrás de uma amiga, deixa eu responder ela. Nossa, tem outras três de uma semana atrás. Santa compreensão alheia. Um pouco de penumbra e eu vejo dois olhinhos revirando enquanto a felicidade da barriga cheia chega para mais um ser humano. Acabou, uns tapinhas nas costas e logo vem ele, o arroto. Nunca pensei que arrotos alheios fossem me trazer tanta paz. Geralmente é o contrário. Levanto da cama como quem pisa em ovos, coloco o neném de volta como quem está na última rodada de um jogo de palitos. NHÉ! Paro de respirar por 30 segundos com a mão no peito dele. Silêncio, dormiu. Volto a respirar. Vou para a cama na esperança de que o sono ainda esteja lá no travesseiro me esperando. Reviro cinco vezes até que a fadiga me vença.

Outro choro, agora com vontade. Mas pera, eu acabei de dormir, não é possível. Olho o relógio, 6h30. Deve ser algum tipo de Inception essas dormidas entre mamadas que parecem durar 5 minutos na vida real. Levanto com os olhos meio fechados e uso a outra metade aberta para ver o neném, que abre o maior sorriso banguela do quarteirão. É muita sem vergonhice para pouco tamanho. Pego neném, almofada, copo d’água, sento, tudo de novo. A diferença é que agora o dia começou de vez, tem fralda para trocar, cama para arrumar e toda uma conversa nenenês. Eu precisava de mais 7 horas de sono. Eu precisava de café da manhã na cama, massagem nos ombros e uma passagem para a Terra do Nunca. Alguém faz esse favor? Ah mas olha essa covinha do lado esquerdo coisa mais preciosa de mãe gente que menino lindo meu deus do céu vou morrer com essas bochechas.

Meu filho tem dois meses e meio, não sei como vai ser daqui a três. Sou mãe de primeira viagem, não tenho nenhuma experiência para dizer que “vai passar, fica tranquila miga”. Passar pra mim tem sido passar do quarto para a cozinha, da cozinha para o quarto e para a sala e volta. Por aí. Me limito a viver um dia por vez. É muita pretensão eu querer dar conselhos que ainda preciso ouvir. E vamos lembrar que conselho não é opinião. Quer ajudar uma recém-mãe? Dê comida a ela. Dê um vale soneca. Um sorriso, tapinha nas costas, um “você tá sendo boa, acredite”. Não vá insistir se o neném precisa de mais roupa, mais leite ou se o pelo do gato está fazendo ele espirrar. Dê sossego, amor, compreensão. Dê o colo quando ela precisar chorar. Porque olha, que choro é esse que vem do nada? Os hormônios sambando na roleta russa enquanto o corpo vai se recuperando do parto e a gente vai aprendendo a ser mãe para manter aquele milagrinho limpo, alimentado e vivo. Sendo que a última parte envolve várias acordadas esporádicas só para confirmar que ele está sim respirando. 

São 8h e estamos migrando para o que parece ser a primeira soneca do dia, rema na fé e vai. Eu costumava dormir até às 9h antes de ser mãe, hoje 9h já são quase metade do meu dia. Na escala clichê da maternidade, quantas notas você daria para este? Balança, põe no carrinho, cobre, descobre, balança mais um pouco, dormiu. DORMIIUUUUU. Agilizo e vou tomar café da manhã, mas sem suco porque se bater suco vai acordar. “Não, mas neném tem que acostumar a dormir com barulho”. Olha, a essa altura eu só quero que ele durma mesmo. Preciso comer, beber um café, olha a cafeína! Cadê a minha mãe? Eu preciso da minha mãe. Ela ficou aqui 40 dias e foi embora. Você aí amiga, que mora na mesma cidade da sua família, jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver. Tá, fiz café, tostei o pão, tirei a manteiga da geladeira na sorrateirice e sentei. Como é bom comer, olha essa manteiga derretendo…NHÉ! ACORDOU? Deus deve estar rindo da minha cara neste exato momento. Volto para ver neném, pego neném, outro arroto e dorme de novo. Põe neném no moisés e volta para a cozinha, o café frio e o pão muxibento. Tá bom assim mesmo, o importante é comer né não? Termino o café da manhã sentindo o estômago flutuando dentro de mim para fazer a digestão. Aliás, sinto todos os órgãos flutuando, se não fosse pela gravidade eu juro que poderia dar uma levitada. Sem falar na prova de elasticidade da pele humana que a minha barriga tem me dado diariamente. Olho a internet, instagram, facebook. Parece que a líder da torcida do time recuperação pós-parto está me enviando indiretas de como eu posso fazer exercícios 3 vezes por semana em 15 minutos cada e perder a flacidez em 30 dias. Se eu fosse melhor em matemática, criaria até um teorema para esta lógica porque o desafio parece insolúvel. Olho lá para fora, o dia está lindo. Eu poderia ir à praia, sair pra andar de bicicleta, correr, resolver coisas. Vamos sentar ali no quintal com o monitor e pegar um solzinho de pijama mesmo. A luz do dia tem quase efeito entorpecedor, faz a dor de estar acordada mais leve. Quando eu digo dor, não estou sendo dramática, é dor física mesmo. É não dormir mais de 3 horas seguidas por quase 3 meses. Experimente.

Enquanto essa luz solar me esquenta o rosto, vejo uma luz subir no monitor. São 11h, vamos para mais um ciclo mamada-fralda-entretenimento. O meio do dia vai me trazendo um calor gostoso no coração, de olhar para o meu filho e não conseguir imaginar mais como tudo seria sem a sua pequena e agitada presença. Seus olhos já seguem os meus, junto com o seu rosto que começa a querer se firmar sobre o pescoço. As mãos já abrem e fecham num ciclo ritmico que envolvem meu cabelo quando o coloco bem coladinho no meu colo. Ele tem um sorriso de lado que sempre aparece quando faço cosquinha na sua barriga. A minha boca e covinha de canto estão ali, os olhos do pai também. Já faz até a famosa pedalada na hora de trocar a fralda e adora ficar sem roupa, como quem aproveita ao máximo a curta liberdade. Seus gritos me divertem toda vez que troco a fralda, enquanto canto alguma música em português com a letra pela metade. Eu estou entendendo de ser mãe, meu marido de ser pai, e ele entendendo de ser uma pessoa. Juntos num triângulo às vezes pontudo, nos achamos e nos completamos em várias fases da nossa recente convivência. Entramos e saímos de acordos, e por mais que o meu instinto mama-bear ataque várias vezes ao dia, nada me derrete mais que olhar para o lado e ver a paternidade criando seus próprios jeitos.

A tarde segue repetindo o mesmo ciclo incansáveis vezes. Eu procurando um jeito de tirar uma soneca antes que as temeráveis 7h cheguem. Você já viu um bebê às 7h da noite? Parece que foi deixado ao léu o dia todo e agora está descontando tudo nos pais, como adoramos fazer por qualquer motivo que nos leve ao choro. Ok, 30 minutos de soneca. Poderia ser no mínimo o dobro mas deixa pra lá. O dia vai escurecendo enquanto preparamos o baldinho de banho. Banho… não tomei um hoje ainda. Vamos ver se dá tempo antes da meia-noite. Tira roupa do neném, põe neném no balde – isso mesmo, o verdadeiro nome para ofurô de bebê. O olhar dele estagna como se nunca tivesse saído do útero. Olha que coisa mais fofa. Encolhido ali dentro em posição fetal, ele vai desistindo de ficar acordado. Opa, quase que eu desisto também. Tira neném do balde, seca, seca, pomada, fralda, limpa nariz, creme, roupa, touca, luz apagada, barulho branco, mamá, shhh shhhh shhh. Agora vem a prova de braço para terminar o dia do único jeito que ele pode ser terminado. Balança, anda para frente e para trás, canta, assovia, muda de posição, anda, anda para sempre, anda como se não houvesse amanhã – MESMO. Dormiu. Sai do quarto, silêncio na casa. Pega qualquer resto de comida que está na geladeira e aquece na tostadeira para não fazer barulho. Se o garfo cair, é DR na certa. TV ligada, só com legenda.

Vou tomar banho no outro quarto com o sono brigando para que não. Debaixo do chuveiro é provavelmente o momento mais livre que eu tenho para pensar, se ainda houver algum espaço no HD mental. Às vezes é a hora de chorar, outras de agradecer. O puerpério marca a fase mais transformadora louca insana dê o nome que você quiser pela qual a gente passa para se tornar mãe. Não existe planejamento que nos coloque à altura da demanda, podemos ler a internet inteira, livros, fazer yoga e meditar o quanto quisermos durante a gravidez. Podemos nos organizar no trabalho, ouvir os relatos da mãe, das amigas, nada vai de fato nos preparar. Não existe incubadora de puerpério. É um momento só nosso, exclusivo de detalhes pessoais, e por isso o máximo que eu posso dizer é: tenha em quem se apoiar.
Pego a toalha e penso no tamanho da mudança de tudo, mas o pensamento não vai mais longe que a urgência em dormir e começar o turno da noite outra vez.

Ter filho não é fácil, mas é incrível.

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1 Comment

  • Reply TER FILHOS DÁ TRABALHO? – Me Deu Branco 20 de junho de 2017 at 5:46 PM

    […] Aí minha amiga, aí você chega em casa. E o que você faz? Liga pra sua mãe vir correndo te ajudar com o trabalho do pequeno pacote sem a menor ideia do trabalho que vai dar esse tal de puerpério. Mas sobre esse trabalho eu falei aqui. […]

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