Gravidez

Meu Relato de Parto

Se havia uma coisa da qual eu tinha certeza durante a gravidez era da vontade de ter parto natural. Aqui nos EUA a cultura de parto tem aumentado bem. Conversando com a minha médica foi como se nem tivéssemos feito alguma decisão, a opção era óbvia. No Brasil, a cesárea tem reinado nos hospitais e claro, cada mãe toma a decisão que quiser e ninguém vai ser menos mãe por isso. O problema é quando essa decisão vem influenciada por uma simples conveniência que não foi tão pensada – bom pra quem? Pra mãe, pro bebê ou pro médico? Coloquei aqui todos os detalhes do meu parto. Foi intenso, não é pra dizer “olha que fácil!” Mas é pra mostrar que vale sim a entrega, amiga grávida. E que cada experiência é muito única.

As últimas semanas de gestação já estavam esticando a minha paciência. Dificuldade em dormir, o peso da barriga, completo desconforto para andar, deitar, dirigir e sentar. Nada além do esperado de como um final de gestação deve ser. Não posso reclamar, apesar do susto da gravidez não planejada, meus 9 meses foram cheios de saúde e tranquilidade. Fiz Yoga toda semana e lá fui aprendendo exercícios mentais e de respiração, que foram fundamentais mais tarde. Me senti mulher, linda e emponderada de estar gerando aquela vidinha dentro de mim. Vivi o efeito margarina mesmo.
A data prevista dele era 2 de setembro e todos os dias, pelas últimas 2 semanas, eu achava que ele ia chegar a qualquer hora por conta das contrações que vinha tendo. Até que sábado de 27 de agosto, meu tampão saiu. Animada, achei que ia ser naquele dia. Nada. No domingo, mais tampão. Nada. A cada dia, parece que as 24 horas não acabavam nunca. Na segunda-feira, decidi respirar fundo e lembrar que ele poderia chegar até uma semana depois do dia 2. Desencanei um pouco. Saí à tardinha para caminhar com a minha mãe enquanto a gente conversava sobre como a vida vinha sendo e ia ser. Eu estava tão na beirada da mudança, mas ainda sem a menor ideia de como ia me sentir com a chegada dele. Eu ia sentir esse tal amor todo na hora que ele nascesse? Ou ia levar tempo? Voltamos pra casa e fiz 20 minutos de alongamento, pensei – quem sabe um empurrão pra ajudar essa criança a vir ao mundo. Fomos dormir e como de costume, acordei para fazer xixi às 2h da manhã. Acordei correndo porque já estava saindo. Pensei se era a bolsa estourando mas tive um controle parcial da coisa, então voltei pra cama e dormi. Às 7h da manhã, outra vez. Assim tinha certeza da minha dignidade indo embora pela próxima semana, nem xixi eu segurava mais. Dormi até às 9h, quando dessa vez veio acompanhado de sangue. A coisa era de verdade. Não sei como, mas saí calmamente do banheiro, olhei para minha mãe e o homem e falei: vamos ligar pra médica e a doula. Os dois olhando pra mim prontos pra entrar em desespero enquanto o sangue cismava em continuar escorrendo. Ainda não tinha contrações e estava calma de um jeito que nunca esperava. – Pode terminar esse ovo mexido, mãe, que eu não vou sair daqui de barriga vazia.

Às 10h20, fomos para o hospital, às 11h começaram a me examinar para confirmar a ruptura da bolsa. Às 12h, veio o resultado: positivo senhora Clara, o seu bebê chega hoje. Custei a acreditar, olhei pro homem e o nosso sorriso substituiu qualquer palavra. Estava animada e confiante. Subimos para a sala de parto às 12h30, eu estava com 2cm de dilatação e contrações ainda leves e irregulares. Me disseram que iriam me induzir com ocitocina porque não havia muito espaço para espera. Até então eu estava na vibe do parto natural, livre de induções e anestesia, mas sabia que o fator surpresa poderia aparecer. Conversamos com as enfermeiras se realmente era necessário, eu não queria influenciar o parto assim e senti aquela fisgada de frustração logo de cara. Nos disseram que com a bolsa rompida era melhor ou teriam que me dar uma dose grande mais tarde para estimular de verdade. Mas foram claras: o corpo é seu, a escolha é sua. Engoli o banho de água fria e optei pela dose mais baixa às 13h20, quando o relógio começava a marcar as horas mais intensas da minha vida.

A enfermeira vinha a cada 30 minutos no quarto me checar e controlar a indução, perguntava se eu queria anestesia e me dizia de um jeito meio indireto que aquele sofrimento era desnecessário. Acho engraçado as pessoas tentarem nivelar a nossa própria experiência. Aquilo me incomodou, mas já estava ficando ocupada demais pra ouvir outra coisa que não fosse o meu corpo. Daí até às 16h, minhas contrações estavam espaçadas, vinham a cada 5 ou 10 minutos e duravam uma média de 30 segundos. A dor era possível e eu ainda conseguia conversar. Deitei na cama por uns minutos, queria relaxar. O celular tocando alguma música brasileira que começou a me trazer um choro meio inexplicável, pensei no quanto tudo estava pra mudar de verdade. Pensei no meu filho de um jeito muito real. Fechei os olhos e conversei com ele, disse que estava tudo bem, que eu estava pronta.

Às 16h30, a intensidade aumentou e o espaçamento diminuiu. Chegava a hora ativa do trabalho de parto, junto com a minha doula que acabava de entrar no quarto. Como eu estava sendo induzida, não podia me desligar do monitoramento e andar. O que não era o nosso plano, mas 1. eu  já tinha entendido que frustração não ia ajudar em nada e 2. plano é uma palavra muito volúvel quando falamos de parto. Nosso espaço ficou limitado a meio metro e uma beirada de cama. Bem diferente do que eu tinha me preparado nas aulas. Em pé, ela ia me guiando a balançar de um lado para o outro e mudar de posição. As contrações agora vinham a cada 2 minutos e duravam média de 1 minuto cada. Comecei a entender o REAL significado do termo trabalho de parto. Por mais que a gente escute, estude, se informe, nada traz mais a realidade do que sentir na pele, literalmente. Cada uma delas era como se uma onda invadisse o meu corpo inteiro e me fizesse perder qualquer estabilidade. A dor abraçava a minha barriga e as costas, enquanto eu perdia a força nas pernas. Eu ia tentando manter a respiração funda pra esperar os intervalos, era o tempo suficiente de tomar fôlego pra próxima. Depois de 1 hora de contrações intensas, perdi a noção do que estava ao meu redor e não conseguia mais conversar. O ombro do homem é uma das poucas coisas que me vem na memória, me debruçando a cada vez que a dor vinha. Me lembro de sentir algumas mãos fazendo massagem, e um cheiro de lavanda para tentar me tranquilizar. Minha mãe e a doula se revezando para tentar amenizar a pressão nas costas – coisa que só sei pelas fotos de hoje.

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Ainda estava disposta a tentar um pouco mais sem anestesia, esperando que a dilatação desse um salto naquela intensidade toda. Às 18h medimos de novo, 3cm. Seis horas de trabalho de parto e eu havia progredido 1cm. Me senti exaurida. Eu ia aguentar? Quanto tempo mais aquilo ia levar? E se não dilatasse? Fiquei com medo daquilo tudo resultar numa cesárea desnecessária. Resolvi partir para o que eu sentia ser a última tentativa. Foi uma hora inteira tentando respirar e não me desmontar com a dor. Cheguei a me questionar qual o motivo daquela minha insistência, eu queria provar alguma coisa? Por que essa briga toda contra anestesia? É incrível como a nossa mente tenta correr por todos os lados quando se vê encurralada. Cada dois minutos me traziam todas as escolhas em cheque. Até que às 19h, agachada na cama eu disse que não aguentava mais. Eu sabia que a minha energia estava toda indo embora. Ainda precisava salvar alguma pra quando chegasse a hora de empurrar e arriscar isso não estava em jogo. Minha doula me perguntou uma vez só se eu tinha certeza. Olhei pra ela, o homem e balancei a cabeça que sim. Em 20 minutos, o anestesista chegou, todos saíram do quarto e suportei as últimas dores intensas daquelas sete horas. O efeito foi muito rápido e quando eles retornaram, eu já estava deitada me sentindo um pouco melhor. Foi um alívio contraditório, mas eu sabia que tinha chegado ao limite do meu corpo, que tentei até a última gota. E não me arrependi, meu único foco àquela altura era que ele chegasse bem.

Às 21h, outra checagem. Milagrosos 7cm. Fiquei aliviada em ver que estava finalmente progredindo. Conseguia conversar e aproveitei para descansar, já que meu corpo estava  avançando para a fase final. Me senti confiante de novo. Às 22h, alcançamos 10cm. Era hora. A enfermeira então começou a me guiar pra empurrá-lo. Depois de um dia inteiro, eu mal acreditava que estávamos tão perto de conhecê-lo. Ainda tinha sensibilidade nas pernas e conseguia sentir a pressão que ele fazia, sabia que isso iria ajudar muito. E eu empurrei. E empurrei, empurrei, empurrei naquele exercício que parecia que as minhas veias iam estourar. Tentava conciliar a respiração com o que ela me falava. Tentava falar pra pararem de alisar meu cabelo, sentia  um calor insuportável, mas não sobrava muito espaço pra minha voz. A médica chegou, todo mundo se posicionou, as luzes foram ligadas. Aquele cenário asséptico da sala não combinava com o que eu tinha visualizado para o nascimento, a anestesia não foi desejada e a ocitocina menos ainda. Mas de qualquer jeito estávamos lá, prontos. Me veio um flash retroativo de toda a gravidez até o momento em que eu conheci o homem. Da nossa primeira conversa sem pretensão nenhuma num bar em São Paulo até aqui, no hospital de outro país com um filho a nascer. Que vida. Às 23h tínhamos todo o time em trabalho ativo e eu usei tudo o que tinha restado do meu corpo pra empurrá-lo de vez.

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Às 23h06, Luca nasceu. Ouvi – meu deus como ele é grande! Um bebezão. 54cm e 3.5kg. Não foi atoa o trabalho que deu. Eu finalmente deitei a cabeça no travesseiro e colocaram ele em cima de mim enquanto o pai cortava o cordão umbilical. A adrenalina, o cansaço, a curiosidade, a felicidade, a emoção, o choro, o homem do meu lado, a minha mãe me sorrindo, a doula vibrando. Nosso filho tinha nascido. Como era grande e lindo e saudável. Fizeram alguns procedimentos nele e o trouxeram de volta pra mim. Peguei uma mãozinha e contei todos os dedinhos. Ele tão desperto, ativo, me olhava de um jeito reconhecedor. A gente se viu, nosso primeiro encontro. Nunca vou me esquecer daqueles olhinhos procurando os meus pela primeira vez. Estava num êxtase tão grande, tão dopada de sensibilidade que não tive demora em amá-lo. Ainda que no meio daquela suadeira e exaustão completa, eu sentia uma felicidade que parecia não caber em mim. Fui tomada pela sensação mais complexa que já conheci desde que me entendo por gente: tornar-se mãe.

Subimos para o quarto cinco horas depois, às 4h da manhã. Eu tive uma laceração considerável e a médica ainda gastou mais quase duas horas em mim entre retirar a placenta e finalizar os pontos. E pensar que tudo tinha começado na madrugada anterior. As coisas não saíram exatamente como o tal planejado, mas elas foram do melhor jeito possível. Eu abracei a situação e a tratei com o respeito que merecia, me senti incrivelmente forte. Um parto nem sempre acontece do jeitinho que pensamos, tem muita dor, muitas sensações que precisamos lidar pela primeira vez na vida sem treinamento nenhum. Mas é exatamente aqui onde mora a beleza da coisa. Fora todos os benefícios fisiológicos para o bebê e a mãe, temos a chance de nos descobrir muito mais do que imaginamos.

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2 Comments

  • Reply Fabí Almeida 26 de setembro de 2016 at 10:01 PM

    Clarinha, que relato lindo! Todo amor e felicidades pra vocês nessa fase maravilhosa e cheia de surpresas. Bjs

    • Reply Clara K. 3 de Fevereiro de 2017 at 1:29 PM

      Ohm obrigada, Fabi! ˆ.ˆ

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