Gravidez, Vida nos EUA

COMO É ESTAR GRÁVIDA NOS ESTADOS UNIDOS

Com ou sem Zica, ficar grávida em outro país nunca esteve nos meus planos. Assim como me mudar definitivamente do Brasil também não. Sempre tive aquela imagem cercada da família, com almoço de domingo da mãe porque a filha estava afim de comer feijão tropeiro aos 4 meses de gravidez, os irmãos insistindo nas piadas que ninguém pediu e o mousse de maracujá derretendo. Mas a vida, ela vem e surpreende. Cá estou eu, grávida e morando nos EUA. Troque o almoço de domingo pelo dia que der, a mãe pelo restaurante brasileiro mais perto, os irmãos pelos cunhados e o mousse por cheesecake.

Eu sabia que não ia ser fácil, mas foi melhor do que imaginava. Tudo segue praticamente a mesma sequência, afinal grávida é grávida em qualquer país e os babys, até onde sabemos, se formam do mesmo jeito. Só de pensar assim, já dá para olhar a situação de um jeito mais esperançoso.

Entendendo a dinâmica médica

Aqui é onde se gasta mais tempo. Os planos de saúde nos EUA não são fáceis de serem entendidos e muito menos baratos, mas há opções. Se você ou seu parceiro trabalham para uma empresa que inclua o seguro saúde nos benefícios, os únicos desafios serão achar um médico que vocês gostem e descobrir os gastos extras com que precisam arcar. Mas não se engane, visita médica aqui não dura mais que 15 minutos na média. Sem essa de chegar num consultório decorado e ter a pressão sanguínea medida pessoalmente enquanto vocês conversam amenidades. Os consultórios têm enfermeiras que já fazem toda a triagem e levantamento de informação necessários, então quando o médico chega, é direto ao ponto. O que você precisa observar é se ele é aberto a perguntas e dá explicações consistentes. A minha médica sempre me questiona sobre as minhas dúvidas e apesar do atendimento ser rápido, ela é muito informativa e até sobra espaço pra ser fofa. Ainda que eu não entenda todos os termos técnicos em inglês, e você não vai entender mesmo e tudo bem, sempre saio de lá mais esclarecida que quando entrei. O importante é a figura macro.

“Mas eu não tenho Seguro…” 

Bom, graças ao Obama (maravilhoso <3), desde 2012 os planos não podem mais recusar ou ter carência para grávidas. Existem dois tipos de planos privados, HMO e PPO. Para resumir, HMO é mais limitado e você precisa sempre ir a um médico geral primeiro, que irá fazer uma carta de recomendação para ver um especialista, no caso o ginecologista obstetra. A cobertura é mais limitada, mas ainda razoável. No PPO, isso não é necessário e você pode ir a médicos dentro ou fora da rede de cobertura. Nas duas opções, você poderá ainda ter um co-pay, que é a porcentagem com a qual você vai arcar mesmo pagando o seu plano e franquias. O importante na hora de contratar é ficar atenta a qual o valor máximo anual do co-pay – ou seja, quanto por ano você vai precisar desembolsar além da mensalidade. Muitos planos têm pegadinha de jogar a mensalidade mais para baixo para parecer mais barato. Por exemplo, você paga U$400.00 mensais, mas tem um co-pay anual de U$10.000 e assim as verdinhas vão embora. Dinheiros, né. Esse artigo explica um pouco mais as diferenças e alguns quesitos básicos. Já se você for elegível para o Obama Care – estar legalizada e com renda de valor máximo comprovada – aí é outra história. O site HealthCare.Gov é a principal fonte de informação para os seguros. Eu levaria três dias para pesquisar e explicar todos os detalhes do sistema de saúde para grávidas, mas essa não é a intenção desse post.

Seguindo para os procedimentos, os ultrassoms aqui são feito apenas quando necessários ou quando se tem uma condição física que precisa ser checada. Eu fiz só dois, com 12 e 20 semanas. Eles não deixam filmar, não te entregam DVD e no fim você leva umas fotos impressas em P&B do seu serumaninho. A coisa é bem prática, mas dá para achar coupons no Groupon de ultrassom 3D. Minha médica diz que é invasivo para o bebê, então apesar de sentir falta de vê-lo um pouquinho mais, deixei pra lá. A postura aqui é poupar o desnecessário. Os exames de sangue são praticamente os mesmos e também a checagem de diabetes gestacional. Em todas as consultas, você  deixa uma amostrinha carimbada do seu xixi, assim elas checam o nível de proteína no seu corpo para ver se há chances de pré-eclâmpsia. Lembrando que este não é o único indicativo.

Outro fator crucial é a diferença na cultura do parto. Aqui não tem essa de sair marcando cesárea antes de feriado e depois da manicure. Eles te dão a sua due date, data prevista do parto baseada na última menstruação, e vão esperar até 41 semanas, ou quando o bebê quiser chegar. Se até lá não houver início do trabalho de parto, a mãe é induzida para estimular as contrações. O ponto é, se você estiver saudável, tudo é feito pensando no parto normal. Pessoalmente, acho incrível. É uma cultura de respeito aos processos naturais do corpo e sempre vai existir a anestesia para quem quiser evitar a dor.

Por último, os hospitais geralmente têm diversas aulas para os pais. De preparação para o parto, amamentação, primeiros-socorros, relaxamento do bebê e o que mais você imaginar. Algumas são de graça e outras pagas, mas bem acessíveis. Nós optamos por essas que citei e faz uma diferença enorme na preparação e ansiedade. Sem contar a oportunidade de conhecer outros pais na mesma expectativa.

Formando grupos de apoio

A melhor coisa que eu fiz por mim nessa gravidez foi ter achado um grupo de Yoga pré-natal. Poderia ser qualquer outro, a Yoga em si não é a questão. Claro, me fez muito bem e aliviou desconfortos, mas o bonito disso foi conhecer várias outras grávidas. Lembro até hoje do primeiro encontro, uma verdadeira plantação de melancias. Dá para conversar muito, rola uma empatia com os inchaços, o humor e as dores. Descobri profissionais, massagistas, onde comprar o que, exercícios para o trabalho de parto e até a contratação de uma doula. Falando em doula, este é outro ponto importante. Como não temos família perto, decidimos usar uma e sentir que tínhamos um pouco mais de segurança com o processo do parto. Com ela, planejamos dentro do possível, já que planejamento e parto normal não cabem direito na mesma frase. Mas formamos uma ideia do que queremos, sabemos como os processos dos hospitais são e quais as nossas preferências para quando o baby Luca estiver chegando. Ainda volto aqui para contar como foi!

Não é de hoje o sentimento reconfortante em achar pessoas em situações parecidas, e estando grávida, a urgência aumenta. Se você mora em outro país ou mesmo longe da família, procure na sua cidade qualquer atividade em grupo para gestantes, o Facebook ajuda muito. Isso vai trazer dias melhores quando o sorvete não der conta de te consolar e a saudade estiver acima da média, pode ter certeza.

 

Interagindo com os locais

De novo, grávida é grávida no Brasil, nos EUA ou na Malásia. Ninguém resiste a uma barriga saltitando. Fui tratada com muito carinho por onde passava, ouvi muitos elogios e vi muitos sorrisos se abrindo enquanto andava que nem uma pata. O único ponto que me deixou com dor de cotovelo foi não ter fila preferencial para gestantes. Numa barriga de terceiro trimestre, não há canela que aguente. Mas aqui, até onde eu vi, não tem fila preferencial pra nada a não ser estacionamento para pessoas desabilitadas. Vamos combinar, isso acaba formando um sistema mais justo em termos de tempo. Às vezes a barriga pesava e a cara de pau mais ainda. Eu pedia para passar na frente. E sempre deixavam. Não adianta, morando em outro país você precisa dar um passinho a mais se quiser as coisas do seu jeito. Ninguém é obrigado a adivinhar suas vontades e isso é uma das primeiras coisas que se aprende para a sobrevivência nas gringas.

Uma das tradições aqui é o gender reveal. No próprio consultório já fazem o exame de sexagem se você quiser, eu não paguei nada a parte por ele, foi rotina. A ideia é fazer uma surpresa em azul ou rosa sem nem você saber, e o mais comum aqui é o bolo. Achei uma doceira, que ligou no consultório médico para saber o sexo do bebê e fez o recheio colorido sem sabermos. No dia, sentou família inteira, até no skype, para acompanhar. Animador, eu diria. Quase não cortei o bolo de tanto que  a mão tremia. Foi incrível e faria de novo:

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Nhaim….alguns momentos depois e o recheio azul!

De fato, o mimo mais legal que curti até agora foi o chá de bebê. Aqui quem organiza é sempre alguém da família ou uma amiga próxima. E faz todo o sentido. A mãe tá lá, quase naufragando em tanta coisa – enxoval, pré-natal, trabalho, azia – e ainda precisa organizar festinha? É demais, minha gente. Sinceridade: o bom mesmo é ter alguém para fazer pra você. Eu tive a sorte de ter dois, porque um era na cidade do meu marido e outro na cidade onde moramos, é pra morrer do coração. Não sei se no Brasil ainda rola o monopólio das fraldas, mas aqui os chás de bebês vêm com uma lista de presentes diversos. Eu fiz a minha na Amazon e ó, deixou a vida de todo mundo mais fácil. Aliás, a Amazon deixa toda a vida mais prática.

Momentos fofura dos chás de bebê:

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Participação masculina na competição da cerveja, afinal não entendo aquele negócio de chá de bebê só com mulher se vocês fizeram a cria juntos.

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Versão Flórida, toda trabalhada na ideia da vizinhança:

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Ficar grávida longe do seu país definitivamente não é a coisa mais fácil da vida. É hormônio, é saudade, é estranheza até você se acostumar. Mas é possível. Faz parte do combo decidi-ir-morar-fora e junto com ele vêm também os momentos legais que você não imaginou. Você vai colecionando pessoinhas boas e elas vão te acompanhando, te adotando. Tudo fica mais fácil e é lindo ver isso ir acontecendo aos poucos. Aponta na fé e rema.

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