Gravidez

A PÁGINA MAIS EM BRANCO

(Texto publicado no Medium, sobre o começo da minha gravidez)

Não é preciso fazer mistério com esse título. Estou grávida. Pouco mais de 20 semanas. Sabe metade de uma vida? Pois é. Estou grávida.

Quantas vezes eu falei essa frase até hoje desde o momento que descobri? Estou grávida. Foi mais ou menos assim: conta para o parceiro na fila de check in do aeroporto. Os dois sem saber em qual país aterrisar na hora da notícia. Estado alfa, beta, gamma. Lá, no mesmo aeroporto que conta a nossa vida.

Ah mas vamos fazer um teste, faz o teste. Confirma o teste: muito grávida.

Conta para a família, chora, chora, chora, conta para alguns amigos, vê atentamente cada um surtar da sua maneira, minha parte preferida. Estou grávida.

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Planos A, B e C

Empolga.

Estufa a barriga depois de comer jurando que oh, como está crescendo! Alguém falou em comer? Que horas é o almoço, hein? Tira umas fotos no BabyCenter, come mais frutas que nunca, escuta umas músicas relaxantes, faz uma caminhadinha ali, sente umas cólicas de leve, toda uma constipação, opa! Descobri que já posso fazer massagem. E esse remédio, pode tomar? Protetor solar faz mal? Metade dos produtos no banheiro banidos, já vai se acostumando a abandonar o glamour. Sushi não pode, presunto e salada fora de casa melhor evitar, já ouviu falar da listeria? Carne só bem passada, queijo só pasteurizado, mas li na internet que pipoca tem fibra. Rola um cinema hein, só preciso jantar antes. Depois a gente toma um milk shake? Se bem que não estou podendo com leite. Deixa pra lá, vou dormir. Nossa, que saudade de uma farofa com banana. Ah, descobri um supermercado brasileiro perto aqui de casa na Flórida! Obrigada aos envolvidos. Aii olha essa roupinha de rinoceronte! Preciso saber o sexo logo.

            Estou grávida. Pára, respira. Você vai ter um bebê.

Não só um bebê, porque bebês pela lei do tempo duram pouco e viram crianças, que viram gente e tudo o mais. Você vai ter uma pessoa, alguém que depende de você. Que vai te observar e imitar. Sempre soube que seria mãe, mas o que nunca se sabe é estar pronta. Eu não estava lá tão pronta. Ainda preciso fazer terapia. Parar de procrastinar. De errar o dia da semana de colocar o lixo pra fora. Aguar as plantas todos os dias. Colocar mais adubo na minha tulipa que está morrendo. Aprender a fotografar e escrever 2 textos por semana. Fazer investimentos, entender muito de política, virar gente grande. A carreira ainda está no meio do caminho, e as viagens — tantas delas, tantos lugares para conhecer. Minha família tão longe. Olha, uma lágrima. Comecei a aprender violão, não sei se por hobby ou desespero. Só sei que o bebê gosta, ele fica quietinho toda vez que toco uns acordes desafinados. Talvez as amigas não vão te entender por um tempo. Talvez você não as veja tanto mais, algumas vão ficar ao seu lado mais do que nunca. Vão dar risada das suas loucuras, da sua mania de pesquisar tudo, até quanto mercúrio tem cada peixe. Vão se derreter quando a sua barriga apontar.

Nessa hora você já sabe, as roupas não vão mais servir, as pernas vão se cansar, a coluna vai te incomodar. Você vai ficar chata alguns dias. Mal humorada em outros. Extra sensível em vários. E mesmo com todas as esquisitices, você vai se sentir mais mulher do que nunca.

Porque não há nada neste mundo que nos transforme mais do que o poder de formar um ser humano.

Por isso, calma, você vai se adaptar. Vai finalmente usar o lembrete do celular e descobrir que agenda dura o ano todo, não só Janeiro. Vai guardar os recibos e ser mais pontual. Vai correr para fazer uns cursos antes de ele nascer e vai trazer de volta tudo o que estava te estacionando. Vai ter tempo para entender que a menina aí dentro de você irá desaparecer aos poucos, que as festas vão perder um pouco o sentido, que os bares não serão mais frequentes e tudo bem. Você vai ter tempo para se distanciar da sua independência.

E durante essa fase, vai ter uma mão segurando a sua, aquela que você escolheu para te acordar nas manhãs de sábado.

O olhar dele vai mudar e o seu também. O carinho no cabelo, a atenção em saber se você está bebendo água o suficiente. As saídas noturnas transformadas em filmes no sofá, os planos de viagem em compras de enxoval, os sapatos em fraldas. Vocês olham para a vida e se perguntam como vai ser. Pensam em nomes, sobrenomes indianos e brasileiros e como fazer tudo convergir. Te imaginamos na praia enterrando a mão na areia, no nosso quarto de manhã cedinho e o formato dos seus olhos. Pensamos na cor da parede do seu quarto, e isso de repente passa a ser a atividade mais empolgante do dia. Que coisa, não? Daqui, eu sigo lendo sobre educação infantil, bombas de leite e ventilação de carrinhos. Se faço um quarto Montessori ou se compro um berço. Se a paleta de cores do quarto está legal e se laranja é muito estimulador. Faço o pré-natal, tomo café descafeinado, leio sobre parto e estatísticas, e sinto o coração disparar quando te vejo inteirinho na tela do ultrassom.

Mas na real, real mesmo, eu não sei como vai ser quando você nascer.

Se vou ser logo a mãe dos seus sonhos ou se vou ter a paciência que preciso. Se vou saber te amamentar. Eu vou errar. Meu olhos vão se encher quando eu não souber porque você está chorando. E vou querer me enfiar dentro de um buraco na Terra ao invés de ouvir infinitas opiniões diferentes. Tenho o pavio curto. Mas vou pedir ajuda, vou querer a minha mãe. Vou perguntar para ela como é que se vira mãe. Eu não sei, porque eu vou nascer com você.

E se você me permitir, meu bebê, me deixar descobrir o mundo com você…

Eu prometo.

Vou olhar todo dia como se fosse o primeiro e te encher de beijo.

Vou dormir sentindo o seu cheirinho. E acordar no meio da noite para ver se você está respirando certinho.

Vou te levar para sentir o sol de manhã cedo, e ler para você dormir sem medo.

Vou ser a melhor pessoa que eu conseguir só para te ver sorrir.

Se você me permitir.

Eu vou aprender a te amar, cada tempo mais.

Eu não sei se você é ela, se é ele. Mas você já é nosso.

Pode vir, que tá tudo certo.

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1 Comment

  • Reply Ravi Kang 30 de julho de 2016 at 2:18 PM

    Beautiful publication.

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